INÊS NEPOMUCENO/ ENTREVISTA


 Porquê o design gráfico como meio de expressão e não outra área? 


Inês: Numa primeira fase, por acidente. Candidatei-me a arquitectura na FAUP quando tinha 18 anos, infelizmente, antes de começar a trabalhar. Não entrei em arquitectura e entrei na 2ª opção – Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto. Sabia desde cedo que queria estar ligada ao universo cultural da cidade pelas áreas de interesse que tinha, mas a verdade é que balançava entre experiências de produção em áreas completamente diferentes, entre a dança, o teatro e outras. Mas rapidamente, a 2ª escolha se tornou 1ª, muito pela versatilidade da disciplina que permite que estejas a trabalhar em ilustração científica para um editorial de Crânio-punctura ao mesmo tempo que trabalhas na capa de um álbum e num vídeo para um festival de música. Isso fascina e deslumbra. Não me consigo imaginar a trabalhar sempre com as mesmas pessoas e nos mesmos temas.

 

 

 Geralmente, como funciona o teu processo de concepção gráfica? 


Inês: O processo varia muito de projecto para projecto mas existem fases transversais a todos. A pesquisa, o sample de imagem e texto, a investigação, a consulta do meu arquivo pessoal, a re-construção desse arquivo, o esquiço em papel, o desespero, a excitação, a produção, a observação, a partilha, a escolha, a decisão, a eliminação. Embora não exista para mim uma sequência lógica e racional ou fórmula mágica no método de trabalho, estas fases vão estando presentes, algumas vezes de forma muito pragmática e convencional, mas na maioria das vezes num equilíbrio entre intuição e razão. A realidade quotidiana, o contexto, inputs exteriores, insólito, as coincidências, o erro, o acaso são constrangimentos que acabam por fazer parte do projecto e o tornam mais adequado, puro e contextualizado. Muitas vezes começo a trabalhar no momento imediatamente a seguir à discussão do projecto, sabendo que em princípio essas primeiras ideias não serão resultado final, mas ajudam a pensar e a partilhar o pensamento. Não existe um único projecto, em que tenha conseguido trabalhar numa só ideia/imagem do princípio até ao fim do projecto. Tenho sempre 20 ou 30 ficheiros (finalíssimo1, quase_final_3) em que trabalho de forma obcessiva até conseguir optar.

 

 Estiveste envolvida na equipa da TwoPoints.Net, em Barcelona. 
Essa tua prestação influenciou de alguma forma o teu método de trabalho?

Inês: Trabalhar com uma equipa como os TwoPoints.Net influenciou definitivamente o meu percurso e o meu trabalho. Mais do que uma contaminação a nível de linguagem, a passagem por este estúdio revelou-se determinante na evolução e construção de um método e processo criativo próprios e também na definição das áreas de interesse dentro do Design de Comunicação. Paralelamente aos projectos do atelier existe uma ligação directa do estúdio à Elisava e essa vertente pedagógica e de investigação, eleva o projecto a uma massa coesa de teoria e prática.

 

 

 Passando por uma das capitais mundiais do design como Barcelona,
encontraste diferenças na abordagem criativa entre o nosso país e “lá fora”?

Inês: A minha experiência de trabalho em Barcelona não me dá ideia exacta das características do Design Gráfico espanhol ou de Barcelona, se é que realmente existem características transversais. Os Twopoints.net tiveram ambos formação na Alemanha e Holanda e isso reflecte-se na forma como trabalham a ilustração e tipografia, no entanto não noto que haja uma diferença nesse campo. Temos alguns estúdios em Portugal a trabalhar bem, não temos provavelmente tantas instituições culturais para as quais possamos trabalhar e vemos muitas pessoas no Porto ou em Lisboa a criar as suas próprias plataformas para mostrar trabalho, seja este na forma de exposição ou publicação. Em Barcelona também acontece isso, não tanto como na Holanda ou Londres. Há neste momento alguma força a nível de self-publishing, de pequenas iniciativas que surgem de grupos de artistas, designers, fotógrafos e acredito que de forma geral este tipo de projectos próprios e locais se intensifiquem numa altura de crise. É nestas fases de mudança e instabilidade económica que crias alternativas e repensas percursos.

 

 Apresentas uma forte linguagem própria nos teus projectos. 
De onde surge a tua inspiração?

Inês: Dos gatos às cores na praia, todos a olhar na mesma direcção, das catástrofes naturais, do cinema, do mármore, do neon, dos Tame Impala, do Serge Gainsbourg, da ficção, do magma, do preto, das naturezas mortas nas paredes dos restaurantes, da História da Arte, da cultura popular, dos postais do Algarve, do vernacular, do bizarro, da viagem, da cama, dos passeios de bicicleta, do Philip Glass, do site fluxo, do cinema. A inspiração ou as ideias são uma conjugação de factores felizes que têm a ver com experiência, observação atenta, pesquisa e muito trabalho, e a linguagem acaba por surgir de um processo criativo diário que é impulsionado quando investigo de forma mais académica um livro específico da área ou quando vou jantar fora. Before starting a new project, designers frequently go off into a corner with a favorite pile of books (usually the same ones as last time) and skim through them looking for ideas. Nothing wrong with this. We all do it. We’re not necessarily setting out to copy ideas; we’re looking for triggers to set off a chain reaction of inspiration. But it is a good idea to try and find different sources of inspiration; it is a good idea to look for triggers in unlikely places. Adrian Shaughnessy

 

 

 De todos os trabalhos que já criaste 
existe algum em especial que tenhas mais afinidade ou conexão?

Inês: Todos os projectos em que estive envolvida tiveram importância, por motivos naturalmente diferentes. Alguns deles fiz com menos prazer, mas deram-me dinheiro para ir a três concertos no mesmo mês e jantar sushi. Existem alguns projectos, muito diferentes uns dos outros, que vejo como referência no meu percurso, como o projecto de Mestrado, as colaborações esporádicas com Julienarts, a colaboração no projecto we are ready for our close up, e a mais recente colaboração, como assistente de arte da revista pli, uma publicação da ESAD. No caso destes três últimos, existe uma característica transversal que me parece uma razão para a importância/sucesso destes projectos: a colaboração entre pessoas de diferentes áreas, com métodos que se complementam, o projecto cresce na discussão e reflexão e no cruzamento de linguagens diferentes.

 

 Se tivesses de escolher duas referências 
do panorama actual do design gráfico, quais seriam?

Inês: Tenho dificuldade em escolher duas referências ao nível do Design Gráfico.
Poderia mencionar nomes como o estúdio Hort, o Jonathan Barnbrook ou numa escala diferente os Mevis & Van Deursen e os Barbara says, Letra ou Martino&Jana em Portugal, mas neste momento as duas referências que preferia deixar são: Prophet Royal Robertson, na área das artes visuais e o estúdio KesselsKramer, na área editorial e identidade visual. Conheci o trabalho do Prophet Royal Robertson no concerto de Sufjan Stevens e embora este não seja um designer gráfico, mas sim um artista norte americano, o seu trabalho foi utilizado no álbum The Age of Adz do músico Sufjan Stevens.Royal Robertson era pintor de placas de sinalética, e por isso tinha alguma ligação ao design gráfico. Robertson sofria de esquizofrenia e alegou ter tido sua primeira visão, uma visão futurista de uma nave espacial com Deus, como motorista, quando ele tinha quatorze anos. Os seus desenhos são registos destas visões. A KesselsKramer é uma empresa que aspira a fazer coisas de forma completamente diferente no campo do design de comunicação. É exemplo fundamental a campanha para o Brinker Budget Hotel Hans. “The worst hotel in the world” é o slogan da campanha que inclui ilustrações, sinalética e fotografias que corroboram esta ideia do pior hotel de sempre. A KesselsKramer Publishing é uma extensão desta atitude inquieta, com humor e por vezes absurda e crítica, na área do self-publishing.

 

 

Como descreves o teu trabalho em geral?

Inês: O meu trabalho neste momento tem facetas muito diferentes umas das outras. Por mais que até possa existir algum tipo de linguagem e coerência em alguns trabalhos, isso acontece quando existe mais liberdade da parte do cliente ou quando não existe de todo um cliente. O trabalho que desenvolvo como designer na ESAD, na revista pli e em outros projectos da escola (exposições e eventos) são desenvolvidos com outros directores criativos e designers, o que faz com que no fim o resultado seja um produto de muitas linguagens e formas de pensar a disciplina e o projecto em si. Todos estes projectos, pessoais, institucionais ou académicos têm contextos muito diferentes e procuro adaptar a minha linguagem e motivações a cada um deles de forma a adequar ao público-alvo, procurando a inovação, a adequação conteúdo-forma-contexto e o incrivelmente bonito.

 

Onde te vês daqui por cinco anos?

Inês: Vejo-me a preto e branco com uma paisagem com montanhas a cores em cima, como nas imagens do John Stezaker. A trabalhar em ilustração e editorial, com uma casa de férias com gatos de cores diferentes na Islândia.

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Entrevista por Nuno Patrício, via e-mail.
Setembro, 2011.

www.inesnepomuceno.com